A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou nesta segunda-feira o seu relatório anual “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025” (SOFI), confirmando oficialmente que o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome. O estudo revela que a prevalência de subalimentação no país, para o triênio 2022-2024, ficou abaixo do limiar de 2,5% da população, critério utilizado pela agência para definir a superação do quadro de fome crônica.
A conquista representa uma reversão notável e rápida de uma tendência de deterioração. No triênio 2019-2021, durante o auge da crise, o indicador havia atingido 4,1%. A saída do mapa foi alcançada em apenas dois anos, um período considerado crítico. O governo brasileiro atribui o sucesso a uma resposta articulada e à retomada de um conjunto integrado de políticas públicas, associadas ao fortalecimento da participação social. Entre as ações destacadas estão a reinstalação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), o relançamento do Plano Brasil sem Fome, a valorização do salário mínimo, o aprimoramento do programa Bolsa Família e o fomento à agricultura familiar através de programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Este resultado fornece uma evidência empírica da eficácia de um modelo de política social liderado pelo Estado, que combina transferência de renda, programas de segurança alimentar e estímulos econômicos diretos. No entanto, essa vitória não ocorre em um vácuo. Ela acontece em um momento de extrema fragilidade econômica, com a ameaça das tarifas americanas pairando sobre a economia nacional. O sucesso das políticas sociais depende de uma base econômica estável, que garanta o financiamento dos programas e o poder de compra dos cidadãos. Um choque econômico externo, como o que se avizinha, tem o potencial de minar diretamente essas consequências, seja pela redução da arrecadação do governo ou pelo aumento do desemprego.
Assim, a celebração desta conquista deve ser acompanhada pela consciência de sua fragilidade. O relatório da FAO valida um modelo de política social, mas também expõe sua dependência das condições econômicas. O verdadeiro desafio para o Brasil não é apenas sair do Mapa da Fome, mas construir as condições para nunca mais retornar a ele.