A 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apresenta um retrato paradoxal da criminalidade no país. O principal indicador, o de Mortes Violentas Intencionais (MVI), que inclui homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, registrou uma queda de 5,4% em 2024, totalizando 44.127 vítimas. Esta redução dá continuidade a uma tendência de queda observada nos últimos anos.
No entanto, por trás dessa estatística positiva, o relatório revela um agravamento alarmante em outras categorias de crime. O Brasil atingiu recordes históricos em violência contra a mulher, com 1.492 casos de feminicídio, o maior número desde o início da série histórica em 2015. Os registros de estupro também alcançaram um novo pico, com 87.545 casos, o que equivale a uma vítima a cada 6 minutos.
Outra tendência proeminente é a explosão dos crimes digitais e de estelionato. Em 2024, foram registrados 2,2 milhões de golpes, um aumento de 408% desde 2018. Isso significa que, em média, quatro brasileiros foram vítimas de fraude a cada minuto.
| Indicador | Total em 2024 | Variação (vs. 2023) | Observação | |
| Mortes Violentas Intencionais | 44.127 | -5,4% | Menor número da série recente | |
| Feminicídios | 1.492 | +2,1% | Maior número da série histórica | |
| Estupros e Estupros de Vulnerável | 87.545 | +1,8% | Maior número da série histórica | |
| Estelionatos | 2.200.000 | +7,8% | Aumento de 408% desde 2018 | |
| Fonte: 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, FBSP 19 |
Esses dados sugerem uma mudança estrutural na natureza do crime no Brasil, um fenômeno que pode ser descrito como a “atomização da violência”. Há uma aparente diminuição da criminalidade mais visível e coletiva, como os homicídios ligados a disputas territoriais entre facções, e um crescimento da violência individualizada, que ocorre em espaços privados (violência doméstica e sexual) ou no ambiente digital (fraudes).
Este novo paradigma torna as métricas tradicionais de segurança, como a taxa de homicídios, cada vez mais insuficientes para medir a sensação de segurança da população. O modelo de policiamento do século XX, focado em patrulhamento ostensivo para combater crimes de rua, mostra-se inadequado para lidar com crimes que ocorrem atrás de portas fechadas ou através de telas de computador. O Anuário de 2025 não apenas apresenta dados, mas sinaliza a necessidade urgente de uma reformulação radical das políticas de segurança pública, com foco em inteligência, investigação digital, proteção à vítima e estratégias de prevenção à violência doméstica.