Mudanças climáticas, guerras e tensões comerciais estão pressionando o sistema alimentar mundial e podem ampliar o risco de conflitos em diferentes regiões. Secas, enchentes e outros eventos extremos já reduzem a produtividade agrícola, enquanto guerras e interrupções nas cadeias de abastecimento elevam os preços de grãos, combustíveis e fertilizantes. A previsão de um El Niño forte até o fim de 2026 pode agravar ainda mais a insegurança alimentar.
Pesquisadores apontam que os efeitos não se limitam à falta de comida. A redução ou transformação da produtividade agrícola pode aumentar a disputa por terras, água e outros recursos, além de estimular migrações. Um estudo do Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi) identificou perdas mais severas em regiões tropicais e alerta que, nas próximas décadas, quase metade da população mundial poderá viver em áreas onde a produção agrícola será menor.
Curiosamente, o aumento da produtividade também pode gerar tensões. Terras que hoje têm pouco valor podem se tornar mais produtivas com as mudanças no clima, atraindo investidores e provocando disputas pela propriedade. Segundo os pesquisadores, essas transformações tendem a representar um risco maior em países com instituições frágeis ou não democráticas, onde governos e comunidades têm menos mecanismos para negociar pacificamente a distribuição de recursos.
O Sul da Ásia e o Sahel estão entre as regiões apontadas como áreas de maior preocupação, devido à vulnerabilidade climática, ao crescimento populacional e à dependência de alimentos importados. No Sul da Ásia, mudanças nas geleiras, ondas de calor, enchentes e avanço da água salgada ameaçam a agricultura e abastecimento. Especialistas destacam que o clima não provoca guerras automaticamente, mas pode intensificar desigualdades e disputas. A capacidade de governos, tribunais e comunidades de negociar essas transformações será decisiva para evitar que a pressão sobre alimentos, água e terras se transforme em violência.